Entrevista com o diretor de curtas independentes Victor Reis

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A descoberta da sexualidade, o universo das Drags Queens, são alguns dos  temas abordados pelo diretor que contou para nós quais são os desafios e caminhos para se fazer filmes de forma independente no Brasil.

 Por Emílio Faustino

Victor Reis Aleixo, nasceu em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, carioca da gema, cresceu em Brasília e Petrópolis e  foi para o Rio de Janeiro com 19 anos. Formado em jornalismo pela UniverCidade de Ipanema, tem 34 anos e veio para São Paulo estudar cinema em meados de 2011. Para conhecer melhor o trabalho do diretor acesse: http://www.youtube.com/user/vickreis08

Como surgiu esse interesse pelos filmes e mais especificamente por fazer filmes?

Victor: Foram vários fatores. Sempre gostei de ver filmes junto de minha mãe quando eu era bem pequeno. Lembro que ela não conseguia dormir cedo e ficava vendo tv, então eu acordava de madrugada e ficava com ela, mesmo que na maioria das vezes eu dormisse. Esse foi o primeiro contato com filmes de terror e suspense, que passavam naquele horário. Quando era adolescente achava que seria médico, porém, ganhei um workshop de tv e teatro e logo depois comecei a trabalhar como modelo, isso me fez conhecer o mundo por trás das câmeras, da produção artística e toda a fantasia que envolve essa área. Percebi então que não gostava de ser modelo, mas me interessava muito o processo de se fazer novelas, seriados e programas. Assim comecei a despertar interesse em ver os filmes que eu gostava com outra perspectiva, a de um diretor de cinema, e fiz faculdade de jornalismo, já focando na sétima arte.
Você escolheu fazer duas coisas bem difíceis, a primeira é fazer filmes no Brasil de forma independente, a segunda é abordar temas polêmicos, como a questão das Drags Queens e dos Gays. É difícil fazer esses curtas? Você recebe algum tipo de apoio?

Victor: Após um documentário que fiz para uma produtora carioca sobre a dança de salão, ter me custado dois anos e nenhum dinheiro ou resultado, fiquei bem revoltado e resolvi produzir meu próprio curta. Por causa da crise que assolava o mundo, decidi fazer um projeto experimental que não precisasse de apoio ou patrocínio, para mostrar que é possível fazer um curta sem recurso algum. No começo pensei em filmar algo sobre a dança, mas depois, revendo meus textos, pensei em filmar algo original sobre a pegação gay que acontecia no parque do Aterro. Na época achava esse um assunto tabu, pois ninguém falava sobre isso, apesar de todo mundo saber que existia. Então bolei uma história dividida em 3 partes, que contava um pouco dos motivos que levam uma pessoa a se entregar ao prazer daquela forma promiscua, e o primeiro filme se chamaria “A fantasia de Eros no Aterro”.

A maior dificuldade de se fazer filme, por incrível que pareça, não é o roteiro, nem encontrar o ator que fará o filme, sei bem o que quero, tenho facilidade em escrever histórias e possuo muitos amigos atores, o complicado é aprender a editar e a lidar com a negatividade e descrença de alguns que me cercam. No “Eros” ,após filmar todas as cenas que precisava, entrei numa tv como repórter apenas para aprender a editar e aos poucos as dificuldades foram se tornando irrelevantes, porque o primeiro passo já estava dado e esse é sempre o passo mais difícil, começar o projeto. Outra dificuldade impressionante é a sonorização das cenas, tenho muito cuidado com o som, pois ele é tão importante quanto as próprias imagens nos meus filmes. O Celso Braga Júnior é um excelente profissional da música, que me ajuda com essa parte, e faz um trabalho musical que eu adoro.

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Conta um pouco sobre os seus curtas, tanto a trilogia de “Eros”, como o documentário “Queens”, existe algo em comum neles? O que cada um tem a dizer para o público?

Victor: A trilogia do “Eros” fala sobre a descoberta da sexualidade de uma maneira poética e diferente, através de um personagem masculino gay, que está saindo da adolescência e entrando na fase adulta. Só o fato de ele ser gay dá ao filme uma dinâmica interessante, pois é raro um personagem gay ser representado além dos estereótipos que a tv impõe. O “Eros” em questão, embora seja o nome do personagem, é também uma manifestação do Deus grego mundano que desce à Terra para possuir os corpos de jovens bonitos. Toda essa poética está embutida no filme, portanto é preciso ver cada cena com cuidado, pois nada é o que parece, e o Eros Deus e o menino se alternam, cada um com sua busca pessoal.

O filme Queens nada tem a ver com a proposta do Eros. É um documentário sobre as Drag Queens e o trabalho que esses profissionais da cena LGBT exercem. Há muito tempo admiro esses que são na minha opinião os grandes artistas da cena gay underground mundial, sempre trazendo alegria e diversão às casas noturnas. Digo underground pois ainda existe muito preconceito da sociedade para com esses artistas. Mais uma vez não me lembro de ter visto algum material em filme sobre as Drags que matasse minha curiosidade. Comecei então a buscar um personagem real que me cativasse a fazer um roteiro e um curta documental sobre esse assunto. Pra minha surpresa encontrei o Felipe Santos na minha cidade natal, Petrópolis, na região serrana do Rio. O alter ego de Felipe é a Satine Prada, uma aspirante à estrela que quando sobe ao palco cativa todo mundo. No começo o filme era sobre o Felipe e a sua Satine, mas quando fui colher alguns depoimentos de diversas Drags na Parada de Orgulho LGBT em Copacabana, percebi que muitas tinham algo a dizer, e na verdade foram elas que transformaram o filme também num manifesto político sobre os direitos humanos e os direitos dos gays.

Acredito que o público em geral pode se identificar com os meus personagens, tanto fictícios, tanto reais, pois eles são acima de tudo humanos, e buscam dentro de si as respostas para as perguntas relevantes da vida: quem sou eu? o que faço aqui?
Não faço filmes para um público específico, poderia dizer que o filme das Drags foi feito para elas mas não seria verdade. Faço filmes primeiramente para sanar minha própria sede de ver algo inédito e conhecer ambientes que ainda não foram explorados e espero que as pessoas se deem a oportunidade de também conhecer esses novos mundos, sem julgamento ou repreensão.

Como é o processo de criação dos seus curtas? Como surgem as ideias e como costuma ser a execução?

Victor: Parto de uma ideia geral do que quero. Por exemplo, com o Eros pensei num filme em três partes, cada uma com até 20 minutos, que formaria um filme completo de 60 min, sobre um rapaz gay que na primeira parte descobria a sexualidade de maneira ainda infantilizada; na segunda seria atormentado pelas lembranças da mãe esquizofrênica, o que o faria afundar ainda mais no sexo; e na terceira ele já seria um homem maduro, totalmente entregue a prostituição. Feito isso, desenvolvo um roteiro com todas as cenas, locações possíveis e impossíveis, custos, tempo de execução e claro, quem serão os atores que farão os personagens.

Uma ideia pode surgir de um fato casual, como a pegação no Aterro, por exemplo. Como eu costumava andar de bike pelo parque à noite, percebi que as árvores se mexiam no escuro. Achei aquilo tão sinistro e sombrio que um dia fui ver o que acontecia. Quando cheguei perto dessas árvores, as sombras viraram vultos e os vultos corpos em movimento erótico. Pronto, está aí uma ideia de algo que eu nunca pudesse imaginar que acontecia, pois até aquele momento, o escuro era apenas escuro, e o parque era apenas parque. Juntamente com as “árvores dançantes” comecei a enxergar o Aterro com outras perspectivas, de dia era um lugar lindo e alegre para a família, e à noite parecia um tipo de limbo, onde as almas vagavam à esmo pela escuridão. Foi assim que surgiu a ideia de fazer um filme nesse ambiente, que mostrasse essa ambiguidade do local, onde dois momentos totalmente distintos aconteciam no mesmo lugar.

A maioria das minhas ideias surgem da curiosidade, então escrevo um conto, me faço perguntas e tento respondê-las, ou apenas deixá-las em aberto. Depois vou encaixando tudo, como num complexo quebra cabeça, onde contos e poemas se tornam imagens vivas.

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Seus curtas possuem algumas cenas de nudez ao ar livre. Como são feitas estas cenas, vocês isolam o local ou fazem tudo correndo para ninguém ver?

Victor: (Risos) Não tenho como isolar o local, por se tratar de ambientes abertos e públicos, e porque não tenho verba alguma pra isso. O que faço é conversar com o ator e ver qual a melhor forma que podemos fazer a cena, sem que cause constrangimentos a quem estiver passando no local. No caso do Eros, o Allan Theodoro, que fazia o personagem, segurava um tecido enorme azul, que era uma manta do Deus Eros, quando estava tudo tranquilo e eu já tinha a posição de câmera que queria, dava um sinal e ele abaixava o tecido, como num ensaio sensual. Teve que ser tudo muito rápido e preciso pra não chamar a atenção, no final ficaram lindas as imagens à luz da Lua cheia. a Lua me deu mais trabalho do que a cena de nudez (Risos), esperei dois meses por aquela Lua.

Notei que seus filmes possuem legendas em inglês… Como surgiu a ideia? Quem faz as traduções, você já teve retorno de alguém do outro Aldo do mundo que viu seu curta?

Victor: Falo inglês desde os 10 anos, sou eu mesmo quem traduzo e coloco as legendas nos curtas. Meus filmes são totalmente artesanais quando paro pra pensar sobre isso. Na verdade, desde o princípio pensei nesse projeto de curtas para enviar para fora do Brasil, pois aqui não via esperança pra alguém tão autônomo como eu. As produtoras parecem se incomodar com o profissional “faz tudo”, e essa nem de longe era minha intenção, me tornei um “faz tudo” pela dificuldade em arrumar parceiros que me auxiliassem a realizar os filmes, todos pediam cachês e queriam dar pitacos. Foi aí que resolvi ir aprendendo aos poucos sobre cada área.

Mandei meus filmes para os EUA, e logo de cara um produtor norte americano gostou do meu trabalho. Ele me incentiva a continuar e me dá muitos conselhos sobre o mercado internacional. Minha intenção é terminar de editar os filmes que ainda estou produzindo e partir para uma nova empreitada.
Você acredita que o Youtube veio para ajudar dar voz para os novos cineastas que encontram dificuldades em expor os seus trabalhos? É muito difícil conseguir fazer um curta entrar nos festivais?
Victor: Sim, esses canais de conteúdo aberto são ótimos meios de comunicação para com as pessoas de todo o mundo. Mas é importante também os jovens cineastas pensarem em estratégias de promoção de seus curtas, filmes e projetos. Eu sempre pensei nisso. Com o Eros, fiz uma estréia para amigos jornalistas e convidei alguns produtores que conhecia, mas tudo num clima festivo e alegre, fiz cópias do filme para as pessoas que eu achava importantes e procurei agências de publicidade que tivessem interesse em ver meu material. Com isso aprendi muito e fiz vários contatos.

Dependendo do festival que você quer participar, seu filme deve ser bem específico e seguir os padrões pedidos. Se o assunto for relevante para aquele festival, as chances de o filme entrar aumentam. Eu fiz o filme QUEENS pensando num festival de cinema do Rio, onde o curador havia me falado que havia a carência desse tipo de documentário. Então não perdi tempo, como eu já tinha o filme, eu o editei da melhor forma possível para que ele participasse. Posso dizer que consegui uma façanha, já que o filme concorreu com outras dezenas de filmes. O cineasta tem que ter muita noção do que quer e como quer, portanto tem que pesquisar, estudar, estar antenado a tudo que acontece.

Como funciona a escalação dos atores de seus curtas? Eles são pagos? São voluntários? Amigos?

Victor: Ninguém é pago (Risos). Esse projeto tem essa característica. É totalmente voluntário e o único pagamento é o próprio filme, que os atores possuem o direito de divulgar da forma que quiserem.
Penso na personalidade dos meus personagens e daí começo uma busca por eles entre meus amigos e conhecidos. Se nenhum condiz com o personagem, busco na rua, nas baladas, em todo lugar. Dou uma de olheiro de agência de moda e chego com meu cartão, ” olá, você já pensou em fazer um filme?”. O mais engraçado é que funciona, acho que sou persuasivo quando quero vender uma história, mando o roteiro pra pessoa, marco um café pra conversar, e aí quando a pessoa menos espera eu já estou gravando. Tem que ser assim, dinâmico, senão eles perdem o interesse. Tem ator que já aguarda há 3 anos o filme sair, eu sempre entro em contato com eles e explico o porque da demora. São os ossos do ofício.

Alguns diretores depois de um tempo acabam criando uma marca, o Tarantino é lembrado por seus filmes violentos e cheios de sangues, Spilberg por conta da magia fantasia, como você gostaria de ser lembrado pelos seus filme?

Victor: Pela originalidade, pelo roteiro e pelas imagens poéticas que todos os meus filmes carregam. Tudo o que faço é cheio de lirismo e poesia, então, mesmo que o filme seja sobre sexo e promiscuidade adolescente, existe ali esse ar onírico e de certo modo, puro. É essa a marca que quero deixar. É muito gratificante quando alguém chega pra mim e diz, “nossa, essa cena ficou tão bonita”, fico realmente feliz porque tem cenas que faço pensando justamente em mexer com o subconsciente das pessoas e fazê-las lembrar não do filme inteiro, mas de algumas partes inspiradoras.

Tem algum diretor que você se inspire?

Victor: Alguns. O espanhol Pedro Almodovar me ensinou a ter sarcasmo, com filmes como KIKA, A LEI DO DESEJO e MAUS HÁBITOS; o francês François Truffaut a ver esse lado real da vida com um certo lirismo, com OS INCOMPREENDIDOS e A NOITE AMERICANA, o chinês Zhang Yimou me mostrou o lado mais humano das pessoas em LANTERNAS VERMELHAS, O CAMINHO PRA CASA e NENHUM A MENOS, e atualmente gosto muito dos diretores Sul Coreanos como Kin Ki Duk e Wong Kar Wai, além de ser fã incondicional do trabalho do Alfred Hitchcock.

Quais são os seus próximos projetos?

Victor: Estou editando agora a segunda parte da trilogia Eros, que se chama “Delírios de cidade grande” , agora o Eros mora na cidade e tem pesadelos constantes com a mãe louca que perturba a cabeça dele. Estou com outros dois projetos, um sobre a Segunda Guerra mundial , que conta a história de ex combatentes de guerra brasileiros que lutaram na Itália e o outro é sobre um poeta de rua que perdeu alguém querido e vive às margens da sociedade, tudo muda quando ele encontra um novo amor, mas a garota é assassinada na frente dele.

Para quem esta lendo essa entrevista e tem vontade de ser diretor e fazer filmes, o que você tem a dizer para essas pessoas?

Victor: Sei que parece clichê, mas acreditem nos seus sonhos e faço-os tornarem-se realidade, não percam tempo com teorias e coloquem a mão na massa, ou no caso na filmadora. Eu tinha um sonho, poucos acreditaram em mim, me senti fraco e triste muitas vezes, mas nunca desisti. Fiz o meu primeiro curta sem saber filmar se sem qualquer técnica, e consegui 4 peças, das quais uma dirigi e as outras produzi, todas em ótimos teatros no Rio. Meu segundo curta acabou de participar de um festival internacional. E agora já estou editando meu terceiro filme. Isso ainda não é nada perto do que realmente quero, que é fazer um filme de verdade, com equipe completa e foco no mercado. Mas acredito que minha história como cineasta está apenas começando, portanto eu estudo muito, faço cursos, workshops e vejo muitos, muitos, muitos filmes.

 

Confira alguns dos curtas do diretor:

FANTASIAS DE EROS NO ATERRO:

 

DOCUMENTÁRIO: QUEENS

 

7 comentários

7 comentários para Entrevista com o diretor de curtas independentes Victor Reis

  • Marcelo Ribas  :

    que entrevista maravilhosa, muito sucesso

    • Victor Reis  :

      Obrigado Marcelo ,
      É sempre gratificante quando pessoas de respeito dão uma oportunidade como essa

  • Vida Pinheiro  :

    Sinto-me privilegiada por ter assistido “Eros” e mais recentemente “Queens” e dentre as muitas gratas surpresas, pude perceber que Victor tem uma característica fundamental para quem quer deixar seu nome na história. DESTEMOR.
    Enquanto muitos tem medo de falar, assumir ou conviver com seus semelhantes apenas por não comungarem de suas convicções, Victor, vem, e nos mostra através de suas lentes cenas reais recheadas de vida, angustias, anseios, esperanças e sonhos, tão humanos e verdadeiros como o de todos nós.
    Parabéns Victor e obrigada por me permitir conhecer sua fantástica arte.
    Bjin
    Vida Pinheiro – modelo e manequim maturidade

  • Ana Felipe  :

    Adorei sentir o seu amor pela arte!

  • Isolda Amazonas  :

    Parabens Victor, continue que vc está no caminho certo! Desejo muito sucesso para vc! Bjs

  • Luciana Saldanha da Gama  :

    Víctor, amei a sua entrevista. VC tem muito futuro por dois motivos : é inteligente e sabe o que quer. E isso, só pode dá num resultado : SUCESSO !!!!! Mil bjsssss

  • Ivone Caldas Resense  :

    Adorei sua entrevista onde você teve oportunidade de demonstrar suas qualidades como cineasta, inclusive abordando um tema atual com colocações precisas, abrindo assim, caminho para que essas pessoas demonstrem o seu lado humano e que desejam única e exclusivamente serem aceitas na sociedade. Meus parabéns,você é muito inteligente e capaz. Desejo-lhe um futuro brilhante.

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